Do Senhor Richfield a uma liderança mais humana

Em 1992, 1993, no auge dos meus 6, 7 anos, eu esperava ansioso pela apresentação de A Família Dinossauro.

Dino, Baby, Fran, Bob, Charlene e todos aqueles que cercavam o clã Silva Sauro faziam parte da minha alegria matinal.

No entanto, tinha um personagem de quem eu confesso que tinha medo: o Senhor Richfield.

Um chefe daqueles.

Bravo, sem muita educação, vaidoso e que tirava o pobre Dino do sério.

O tempo passou e, por volta de 2004, entrei no mercado de trabalho.

E não é que naquela época ainda existiam filhotes de Richfield por todos os lados?

O chefe que todo mundo temia

Eu mesmo tive um chefe. Vamos chamá-lo de Fieldzinho.

Era praticamente uma cópia fiel do personagem.

A sala dele aguçava a imaginação pelos corredores:

“O que será que tem lá dentro?”

Para começar, o que dava para sentir era o cheiro forte de cigarro e uma energia mais pesada que o Titanic.

Além disso, víamos Fieldzinho mastigando duas Neosaldinas de uma vez. A empresa inteira tinha medo dele.

Bastava apontar para alguém no corredor e, imediatamente, as conversas acabavam.

Os olhares iam para o chão enquanto ele passava como um Megazord.

E quando o ramal tocava e Fieldzinho dizia:

“Vem aqui na minha sala.”

Pronto.

O caos das emoções estava instaurado.

Eu sei que precisa existir hierarquia. Uma empresa precisa de estrutura, comando, responsabilidade e clareza sobre quem decide o quê.

Ainda assim, eu ficava me perguntando:

Será que causar medo é realmente a melhor forma de liderar?

Será que não seria melhor ter o respeito da equipe em vez do medo?

Quando a liderança vira um palco para a vaidade

Saí daquela empresa alguns anos depois e nunca mais tive informações sobre Fieldzinho.

Mesmo assim, suas histórias ainda circulam entre as pessoas que fizeram parte daquela época.

Depois, fui para outra empresa.

Dessa vez, encontrei uma nova versão daquele mesmo personagem. A diferença é que havia uma característica adicional, e bastante perigosa: a vaidade.

Pense em uma pessoa que fazia questão de gritar aos quatro ventos com as pessoas.

Não importava onde estivesse.

Podia ser no corredor, na frente de outras pessoas ou durante uma reunião.

A atenção era chamada no melhor estilo “esculacho”.

Ao mesmo tempo, fazia questão de ser bajulado e de aparecer nas revistas da época.

Enquanto isso, pelos corredores, a equipe falava horrores sobre sua liderança.

Mais uma vez, a busca pelo respeito havia sido vencida pela necessidade de construir uma imagem que gerasse medo.

Esse personagem eu vou chamar de Johnny Cage.

Quem conhece o personagem dos games sabe que a vaidade dele é praticamente astronômica.

Mas por que estou falando tudo isso?

O papel da liderança mudou

Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de conviver com muitos líderes importantes.

Vi pessoas que conduziam suas equipes com pulso firme, mas também com humanidade.

E, justamente por isso, vi essas pessoas colherem, e continuarem colhendo, ótimos resultados.

O fato é que o papel das lideranças mudou muito.

Parte dessa transformação também passa pelos departamentos de Recursos Humanos. Afinal, essas áreas deixaram de ser vistas apenas como responsáveis por folha de pagamento, admissões e rescisões e passaram a ocupar uma posição muito mais estratégica dentro das organizações.

Consequentemente, as pessoas passaram a estar mais no centro das discussões.

Com isso, a comunicação entre os diferentes níveis hierárquicos também ficou mais fluida, ativa e objetiva.

Hoje, portanto, liderar exige muito mais do que simplesmente dar ordens.

É preciso saber se comunicar.

Liderança e comunicação caminham juntas

Na Tagarela, recebo com muita frequência pessoas que querem trabalhar a comunicação para adequar sua conduta aos objetivos estratégicos da própria carreira.

Entretanto, esse trabalho vai muito além das técnicas de oratória.

Entramos em comportamento humano, emoções, linguagem persuasiva e consciência sobre o impacto daquilo que comunicamos.

Afinal, falar sem estratégia pode ser perigoso.

Uma piada fora de hora pode criar um climão desnecessário.

Da mesma forma, um pedido feito com uma voz mais pesada pode gerar conflito.

Além disso, um gesto desconectado da mensagem pode enfraquecer aquilo que você está tentando dizer.

Já um feedback em tom de “puxão de orelha”, sem orientação sobre o caminho a seguir, pode ultrapassar uma linha que jamais deveria ser ultrapassada.

Até mesmo uma palavra aparentemente inofensiva pode ser interpretada de uma maneira completamente diferente por quem está do outro lado.

O líder influencia estados emocionais

É claro que, se você ficar neurótico pensando em tudo o que pode acontecer, acaba não fazendo nada.

Por outro lado, também é preciso entender que toda mensagem produz algum impacto.

O líder tem uma ferramenta poderosa nas mãos: a capacidade de levar pessoas a diferentes estados emocionais.

Euforia.

Motivação.

Reflexão.

Medo.

Tristeza.

Ansiedade.

Segurança.

Por isso, liderar também é compreender o impacto da própria comunicação.

Isso não significa medir cada palavra a ponto de transformar qualquer conversa em uma operação delicada.

Significa, acima de tudo, ter consciência.

Liderança humanizada não significa liderança permissiva

Um líder precisa pensar de forma mais humana, sem esquecer que existe um objetivo de negócio.

Na maioria das empresas, esse objetivo envolve crescimento e lucro.

Porém, uma coisa não precisa anular a outra.

Pessoas bem tratadas não precisam ser mimadas. Precisam ser respeitadas.

Para isso, é fundamental que entendam seu papel dentro da organização e saibam o que se espera delas.

Além disso, precisam receber orientação, ter espaço para crescer e enxergar coerência entre o discurso e o comportamento de quem lidera.

Mais do que uma autoridade, o líder precisa ser um exemplo.

E, quando isso acontece, o retorno aparece.

A nova geração e o fim dos Fieldzinhos

Essa nova geração que está chegando ao mercado também está acelerando a morte dos Fieldzinhos.

Na minha época, entregando a idade, a minha geração era muito mais fanática por trabalho.

Em muitos casos, a empresa vinha em primeiro lugar.

A pressão fazia parte do dia a dia.

Talvez tenhamos errado ao aceitar, em silêncio, alguns excessos das lideranças.

Hoje, entretanto, essa nova geração está chegando com outra mentalidade.

“Vai me tratar com ignorância?”

“Beleza. Eu vou embora.”

Consequentemente, vemos uma mobilidade profissional muito maior entre os trabalhadores mais jovens, com menos disposição para permanecer durante muitos anos em ambientes que não estejam alinhados às suas expectativas profissionais e pessoais.

O mercado mudou.

As relações de trabalho mudaram.

Por isso, a liderança também está mudando.

O futuro da liderança exige respeito

Tudo é ciclo.

A linguagem dos anos 90 ficou ultrapassada nos anos 2000.

Depois, a linguagem dos anos 2000 ficou ultrapassada nos anos 2010.

E assim continuará sendo.

O mundo muda.

As pessoas mudam.

As relações de trabalho mudam.

E a liderança também precisa mudar.

Talvez o grande desafio do líder moderno não seja abandonar a autoridade.

Na verdade, é aprender a exercê-la de outra maneira.

Você não precisa deixar de ser firme.

Também não precisa abrir mão da cobrança.

Da mesma forma, não precisa deixar de tomar decisões difíceis.

E muito menos transformar a empresa em uma roda de terapia.

Porém, precisa compreender que existe uma diferença enorme entre ser respeitado e ser temido.

A autoridade continua sendo necessária.

A cobrança continua sendo necessária.

A hierarquia continua sendo necessária.

O que mudou foi a forma como tudo isso precisa ser comunicado e exercido.

Se você quer estar na vanguarda da liderança, se eu puder lhe deixar um conselho, é este:

Fomente o respeito e acabe com o medo.

Respeito move.
Medo paralisa.

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